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Líbano: (Re) Aprender a Viver

Com uma população estimada de 6 184 701 de habitantes e localizado na extremidade leste do Mar Mediterrâneo, na Ásia Ocidental, numa região que liga diretamente com a Europa, o Líbano é um país que tem muita história para dar a conhecer ao mundo. 

As constantes crises, catástrofes e desastres no Líbano na era pós colonial, recordam os 15 anos de guerra civil, a ocupação de Israel ou o domínio do país vizinho, a Síria. 

Quinze anos e meio de guerra civil, duas guerras com Israel e outros múltiplos ataques depois, a capital do Líbano, Beirute, sofreu uma catástrofe que provocou mais de 130 mortos, mais de cinco mil feridos e uma centena de desaparecidos. O navio MV Rhosus, de propriedade Russa, atracou em 2013 no porto de Beirute, e nunca mais saiu daquele local para completar a sua viagem. O navio terá chegado à capital libanesa enquanto viajava da Georgia para Moçambique. Foi impedido de sair do porto em 2014, por questões que ainda não foram totalmente clarificadas, mas que apontam para falhas mecânicas ou para falta de pagamentos. Contudo a Cornelder, empresa gestora do porto da Beira, em Moçambique, negou que “tenha sido notificada que um navio com essas características e carga se destinasse ao país”. Certo é que o navio continha a bordo uma carga de 2750 toneladas de nitrato de amónio, um composto químico que é bastante utilizado no fabrico de explosivos e fertilizantes agrícolas. Surpreendente, ou não, o facto de a situação estar já identificada e ser do conhecimento das autoridades competentes. O ex primeiro-ministro, Saad Hariri, teria, inclusive, conhecimento do caso. Apesar disso nada foi feito entretanto. 

Muito provavelmente teremos as investigações a chegar até às altas instâncias do poder. Até ao momento as investigações para apurar as causas de mais uma catástrofe em território Libanês resultaram em 16 detidos, sendo esses detidos funcionários do porto de Beirute. 

Se o Líbano já vinha a sofrer com uma inflação completamente fora do controlo (o preço dos alimentos disparou, a maioria da população deixou de ter possibilidade de comprar carne ou pão, por exemplo), com a libra libanesa a desvalorizar mais de 80% em relação ao dólar, a situação agravou-se com a pandemia da COVID-19 e com a explosão que veio criar um panorama completamente desolador: as estimativas do impacto desta explosão, apontam para um valor entre os 2,5 e os 4,5 mil milhões de euros. 

Acresce ainda que o Líbano importa cerca de 90% do seu trigo e a maioria desse trigo tinha como ponto de passagem o porto que, agora, se resume a cinzas. Segundo Raoul Nehme, ministro da economia e do comércio libanês, todo esse trigo ficou destruído.

Trata-se, por isso, de uma das maiores crises económicas das últimas décadas, que levam ao congelamento de contas bancárias, despedimentos em massa, falta de rendimentos e muitas dificuldades a serem sentidas pela população Libanesa. 

Perante as sucessivas crises, manifestamente, quem sofre é quem sente e vive esta dura realidade. Os problemas surgem com maior magnitude e são sentidas na população, que clamam por falta de mantimentos, falta de cuidados de saúde e com a urgência primária de obter assistência do ponto de vista financeiro, económico e social. Face a este cenário os libaneses têm saído à rua em protesto contra o Governo chefiado por Hassan Diab (tomou posse no início deste ano com o apoio do Hezbollah). Porém a crise mais grave desde 1990 não tem sido revertida e, além disso, o executivo não tem, até ao momento, conseguido ter êxito nas negociações com o FMI para a obtenção de um empréstimo que iria servir de alavanca às reformas tão necessárias para o país. 

Por isso, a questão mais imediata que se coloca é: que futuro para as gentes libanesas, mais concretamente as de Beirute, colocadas no centro da catástrofe? Terão de aprender a viver num clima de constante inquietação, sobressalto e incerteza?

Mais do que nunca o Líbano precisa de alguma estabilidade, palavra desconhecida até agora pelos sucessivos tiros nos pés dados pelos seus governantes em matérias  tão essenciais como a economia, as finanças ou as questões sociais. Precisa, sobretudo, de líderes responsáveis, que olhem para e pelo seu povo.